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sábado, 4 de março de 2017

NO PARAÍSO

Chega para mim, assim, devagar,
pouco a pouco
sinto o seu calor no meu rosto
o seu cheiro no meu colo posto



encontra-me a descoberto, exposta
toma-me para si, afoito
não espera a resposta nem repara
na imperfeição da forma - ama-me!



Toma dos meus licores, meus sabores
aspira do meu perfume.
se entrega inteiro.



Aventura-se e se umedece
em meus suores, em extase
pra depois contemplar embevecido
o meu adejar pelo paraíso do gozo



por não contentar-se com o pouco
aqui permanece como se além de mim
nada mais houvesse!


Maria Lucia (Centelha Luminosa) 




sexta-feira, 3 de março de 2017

LEMBRANÇA RASTEIRA



um dia sem compromisso
à sombra de uma palmeira
a água fresca do coco
o par de chinelos na areia
me vem a lembrança rasteira
essa preguiça ... é passageira!


Maria Lucia (centelha Luminosa)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A MELHOR FRAGRÂNCIA


pedi um cálice de vinho tinto
e me destes
para atender aos meus apelos
teus lábios gotejantes de beijos
a melhor fragrância do néctar
que inda sinto
cúmplices de meu desejo...


deixei, então
a tua boca avinhar a minha
pelos muitos beijos
que me foram dados
revelando na saliva
infinitos segredos
em goles derramados...


depois, veio um sono
despido de tempo e de espaço
em teu abraço
olvidei as significâncias
da razão para te reter agora
assim, debruçado
sobre o meu peito
a ressonar
embriagado de emoção!

Maria Lucia (Centelha Luminosa)


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Poesia-me (poeta pintor)


poesia-me quando
me percorres o corpo
com o olhar do poeta pintor
ávido por um mote
uma tela ao seu dispor
e põe-me a beleza pressentida
sensível aos dedos
escreve-me um enredo
na folha úmida do olhar
abrevia-me como num haicai
e demora-me na odisseia
cheia de ousadia
a palavra desaparece, fica vã.
pra declamar-me, apaixonado fã
sem plateia, ao final do dia...

Maria Lucia (Centelha Luminosa)

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Amor Além do Agora


Certo alguém, hoje, me procura
com paixão, ansiedade de amar
mas traz também na íris do olhar
sinais claros de despedida futura...


é encontro casual, desses que não satisfaz
por certo, me dará prazer na brevidade.
por ser, talvez, incerto e fugaz
partirá depois, sem deixar saudade...


desejo um amor que não se esquece
aquele que perdura além do agora
que do tempo seja aliado, porque cresce
e permaneça comigo vida a fora


Maria Lucia (Centelha Luminosa)



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Confissão


... confissão que oscila
entre o silêncio refinado da prudência
e o prazer de se expor
lasciva, apaixonada
sussurrando sem pudor: sou tua!


é desejo
avidez sensual que é só minha
sobrepõe-se de tal forma
que a libido a encaminha
por toda minha língua nua...


o meu amor vibra na urgência
rasgando o verbo da palavra alforriada
cada estrofe o revela livre, haurido
pleiteando, por ora
apenas o teu ouvido!

Maria Lucia (Centelha Luminosa)


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

SEMEADURA



A inquietude
vai para além dos dias
contemplação a esmo
no beiral do tempo...


reza os silêncios de cada dia
a alma pungente em noite escura
a fé surge iluminada...


pela mesma razão
se agita a paisagem em verdor
ante o zunir do vento
a chuva fina, a fruta, a flor...


agreste aroma
evola-se da terra arada
prenhe de semeadura...




Maria Lucia (Centelha Luminosa)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

NECTAR DO MEU SER




Não me tire à alegria de agora, meu dom.
a motivação pra suspirar...


nem a sina de sonhar
a emoção dessa hora
tradução do meu sentir...


não desdenhe a flor por ti subtraída
dos meus lábios
minha vocação de amar...


por que
é tudo o que eu tenho
o que me dá sustentação


a raíz, o húmus e o lenho
que me fincam nessa chão...


dou-te a renúncia amanhã, hoje não!
te desejar é néctar que flui em meu Ser
seiva que vivifica esse amor que eu não posso ter


Maria Lucia (Centelha Luminosa)



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A SUA CHEGADA

Eu bem quis segurar o instante
minha palma não foi o bastante
esvaiu-se de mim como sopro
seu gosto, seu cheiro, seu som...


uma réstia do seu jeito de amar
nem da sua alma a tessitura
eu não pude sustentar...


vai-se às pressas, a madrugada.
fustiga o sol que a clareia
nosso tempo é sem rumo, é o mote
que as nossas vidas colcheia...


antes que o pensamento divague
por aí, a sua procura
cerro os olhos pra guardar
dos seus, ó Deus!...O brilho do amor
que eu vi logo
na sua chegada!



Maria Lucia (Centelha Luminosa)


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

DEPOIS DO AMOR


Instigante esse seu jeito de amar
depois, vem o desapego
no olhar eminente partida
por que a palavra é vã
onde o silêncio impera...


mas ai!...
pudesse lhe amar de novo
o cheiro bom do amor
eu lhe daria em dobro
e o reteria aqui por perto
nessa manhã que não traz
a eiva dos dias...



como das outras vezes
depois do amor
desaparece por destino incerto
em sua fantasia de quimera
quedo-me em quietude
ávida de nova espera...


Maria Lucia (Centelha Luminosa)

sábado, 8 de outubro de 2016

SOMENTE UMA CRIANÇA


Perambula pelas ruas nua criança
sobrevive ousada e não descansa
no caminho estranho, arremessada
sem abrigo e sem amigo ainda sonha
essa revel mendiga
com o que a boca não pede e a alma almeja
e à fúria não cede...


na penúria em que se arrasta todo dia
tem lá o seu canto à margem
onde dorme e sonha que se despe
da rota e macabra veste
da frágil criatura ultrajada, em cidadão
das promessas vãs da politicagem...


liberta-se, então,
da sombra que a enlaça
de pé, em destemor na sua fortaleza
veste a alva túnica de ternura
de sorriso iluminado esquece a vil fraqueza...


eleva-se não mais a triste e mortal fragilidade
em o Ser dos paramos da mesa farta
de livro e pão e de esperança
para uma vida simples e de água pura
não mais a desprezível caricatura
para ser somente uma criança!


Maria Lucia (Centelha Luminosa)





sábado, 1 de outubro de 2016

CONEXÃO



...vou assim
sem aquela pressa de chegar
a lugar algum
percorro devagar o caminho
e o caminho mesmo me ensina
a observar os detalhes simples
de uma folha seca ao vento
no galho frágil
um aconchegante ninho
o que antes era só paisagem
ao meu olhar indiferente
faz-me, hoje, pequenina e onipresente
para perceber vivalmas
nada mais, fica à margem
com seus significados profundos
por que, hoje, me inteiram
plenamente agraciada
para lapidar-me a alma...




Maria Lucia (Centelha Luminosa)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

RIO DE MIM


rio de mim
quando me vem à tona
cheiros, sabores
amores
descerro os olhos
um cisco incomoda
emerge no imaginário
um ponto de risco
aí, é um “Deus nos acuda”
um rio d’água
que me derrama
às vezes, se faz necessário
lavar a alma
em correnteza miúda!



Maria Lucia (centelha Luminosa)

domingo, 18 de setembro de 2016

DESASSOSSEGO DO POETA



Eu queria 
compreender-te a alma, poeta!
conhecer a tua desmedida ânsia de amar
vislumbrar o mundo onde habita
a tua alma inquieta...



imaginei que pudesse humanizar o divino
que existe em tua veia pulsante
trazer-te para o chão um só instante
p’ra escutar de perto a cítara
que vibra em teu coração...



sondar-te os arcanos insondáveis
no sagrado momento 
em que recolhes do cotidiano
doces rastros de sorrisos e de lágrimas
retalhos anônimos de faces sem nomes
p’ra compor os teus poemas canções...



parece-me captar as ondas das emoções
que carregas em segredo,
misto de prazer e de medo
sob o véu do teu aconchego...



escravo e senhor. Dominado e dominador
assim, é, poeta, 
o teu mundo em desassossego
poesia destravada, de incoerência e paixão
labareda atirada a esmo
capaz de incendiar livre o mundo de fora
tão cheia de ti mesmo!


Maria Lucia (Centelha Luminosa)


sábado, 3 de setembro de 2016

LÁGRIMAS BENFAZEJAS




A lágrima é um meio 
que a Natureza nos deu
para materializar excessos de nós
que não nos cabem, por dor, raiva, desilusão
incontida aflição ou desamor
alguma veleidade
pra atenuar a ansiedade das esperas
da saudade
para aliviar a alma 
consolo pra melancolia
e também pra intensidade da alegria
expressar felicidade
gotas que aos olhos lampejam
elas são, por isso e, muito mais
lágrimas benfazejas!



Maria Lucia (Centelha Luminosa)


terça-feira, 30 de agosto de 2016

VOLTO PRA MIM



Amei-te 
me recusando a olhar
o que trazias consigo
atravessei veredas
pisei em pedras
de sombras vencidas...


tiro-te de mim simplesmente
abrindo os olhos, silencio à boca
mudez a fala, não há lamúrias
soluço sustado no peito a galope
esgotou-se-me os argumentos
não mais me arranham as colisões


o clamor de antes deposito delicadamente
nas asas do sonho
estou voltando pra mim
enfim...


Maria Lucia (Centelha Luminosa)

sábado, 27 de agosto de 2016

DESPEJO


havia lhe dado moradia ao lado
esquerdo do peito
na sua vinda, trouxe pro meu leito
o seu livro de muitas histórias
que em silêncio eu lia
o violão e a sua contagiante cantoria
sem enfado eu ouvia
uma bagagem, cheia de metáforas
recortes de imagens do passado
conservadas, ainda...


pouca coisa.
Tudo que tenho - sorrindo me dizia.
ali, se instalava como queria - por dias.


     sem lhe chamar  – ele vinha
amava, amava até esgotar-me.
até que um dia no cômodo que lhe dei
a balburdia começava...


a palavra esvaziou-se
pra vida falsa promessa
trapaceadas ausências
sacanagem todo dia, foi o fim...


Despejei-lhe!... vá depressa, fora
do cômodo ao lado esquerdo de mim!



    Maria Lucia (Centelha Luminosa) 


sábado, 20 de agosto de 2016

GOTA DE ORVALHO NA FOLHA DE NHAME




Não sei
de onde vem intrusiva
deslocando brisas
em espiral
uma gota de orvalho
a desfolhar entremanhãs
no meu quintal


pingo d’água espera
na folha de inhame
balançando ao vento
quem o ame...


a noite serena
se arvora em luares
pra se estesiar


rebrilha na gota
que triste dizia:
- é de ti, oh...Lua, esse brilho
ou me roubou a poesia?

Maria Lucia ( Centelha Luminosa)


sábado, 13 de agosto de 2016

O OLHAR DE MEU PAI



























                                    ... segue assim, ainda
por vias estreitas e insuspeitas
astuto a colher belezas
apenas pressentidas
e os quase nadas despercebidos
das pequenas coisas...


a grandeza oculta
das mais insignificantes
momentânea, peregrina
dos movimentos ondulatórios
ciclos que se abrem e se fecham
invisíveis ao olhar viciado
sem vibração, morno
no umbigo...


seu existir no enredo matinal
adornado ao pão à mesa
do aroma de café fresco
o fogão à lenha
a crepitar paixões...


trigo ao vento seus cabelos
seu jeitão de cismar longe
descobridor de aquarelas
e, daqui sinto que o teu sonhar menino
perdurará além no infinito
no amanhecido olhar do meu pai!





Maria Lucia (Centelha Luminosa)