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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

LENDAS URBANAS - Blogagem Coletiva



Agradeço aos parceiros Christian V. Louis, e Elf Pandora, pela oportunidade que me concedem em participar de mais uma  Blogagem Coletiva.

Que “Lendas Urbanas,” seja um sucesso tão grande ou maior que as Blogagens Coletivas  anteriores.

Muito Obrigado!



Todos os dias, pontualmente, ela visitava a Biblioteca Municipal.Entrava  pela lateral e, desaparecia pelo corredor que dava acesso às dependências do salão de leitura. Isso já há alguns meses. Ele  a via entrar, mas nunca a via sair. Já se posicionara nas imediações do prédio, que não era tão grande assim, de forma a não perdê-la de vista, mas nunca conseguira surpreendê-la na saída. Precisava investigar aquela moça tão estranha, pensava.

Bibliotecário responsável pela entidade, o jovem Oswaldo cumpria também a função de porteiro, já que não se encontrava candidatos para esta função, a altura de sua criteriosa seleção.
Olhar astuto e curioso, não compreendia porque aquela moça tão bonita, elegante e de ares angelicais, que nunca lhe passara despercebida, não usava a entrada principal. Muito estranho!

Certamente que qualquer freqüentador da biblioteca poderia utilizar quaisquer das portas de acesso a que ele denominava “casa da cultura”, que contava com três, e invariavelmente, todo mundo entrava pela porta principal. Somente aquela senhorita a qual nem sabia o nome, mas que ele havia nomeado Srta Morena Bonita, o fazia pela porta da lateral esquerda do edifício...

Procurara no livro de presença da biblioteca, mas nada encontrara sobre ela, nenhuma referência sobre a sua presença ali, todos os dias. 
Lembra que a vira pela primeira vez algum tempo atrás. A data não lhe parecia importante, mas sabia que ela freqüentava a biblioteca todos os dias, às tardes. Sem faltar um dia sequer. Muito culta a tal moça, pensava, enquanto alisava as madeixas louras a lhe caírem sobre os ombros. 

Muitas vezes, circulava pelo interior da Biblioteca para observá-la, discretamente. Ele tinha essa possibilidade, já que se tratava de funcionário efetivo e cuidar da "casa da cultura" em todos os seus quadrantes, era função sua, inclusive, saber quem eram os seus freqüentadores. Se bem que nos últimos tempos, notava que o gosto pela leitura havia diminuído e a freqüência a Biblioteca já não era a mesma de antes. Talvez a ausência dos leitores se devesse àquele triste acontecimento que o envolvera, provocado pelo destempero de José Antunes, ao qual evitava pensar por causa da fissura que isso lhe causava...

 Sorria, com certa vaidade ao pensar que Srta Morena Bonita, se parecia com ele, verdadeira “devoradora” de livros. Percebia que a leitura preferida da jovem se tratava de obras poéticas, alguns contos românticos, parnasianismo, ensaios e memórias...

Porém, em relação a ela, era tudo diferente. Sabe-se lá por qual sortilégio ele não conseguia se aproximar da moça, como sempre fizera com todos os freqüentadores da Biblioteca Municipal. Em poucos anos de trabalho por ali, havia cultivado muitas amizades e conhecia praticamente quase todos os estudantes, pesquisadores e amantes dos livros. Assim como ele.
Cumprimentava e dirigia a todos palavras amáveis de boas vindas. Bons tempos. Mas, esse mesmo tempo, trouxera tantas mudanças, pensou magoado...

Naquela tarde, tomara uma decisão. Iria ao seu encontro na sala de leitura, romperia o “cordão de isolamento” que o impedia de se aproximar e puxaria conversa. Sabia por oficio que o silencio nessa sala de leitura, era lei, mas estava disposto a infringi-la por alguns minutos apenas.
Inseguro, coração aos saltos, pernas trêmulas. Era assim, que Oswaldo se sentia ante a porta de entrada da sala. Antes, verificara que não havia mais ninguém a dividir o mesmo recinto com a jovem, portanto, estaria a sós com ela . Mas, precisava se acalmar.

Por que estava tão nervoso assim? Logo ele, moço extrovertido, experimentado nas lides com o público em geral, gente de todo nível e faixa etária. Aquela moça morena, bonita, de fisionomia doce e gentil, o intimidava por alguma razão. Talvez fosse por causa do mistério que a envolvia, refletiu inquieto.
Nem mesmo José Antunes, fazendeiro arrogante  e orgulhoso que espezinhava a quem julgasse seu inferior, lhe metera medo tempos atrás, ao lhe acusar pelo sumiço das obras raríssimas que havia doado a Biblioteca, a pedido da filha, antes de seu falecimento nesse mesmo ano...

Jovem generosa, amante da poesia e da literatura, vivia reclusa em sua bela casa, com os pais, por causa de enfermidade grave que acabou por levá-la para outro mundo, precocemente. A esse pensamento, um frio sobe-lhe pela espinha dorsal e num gesto rápido faz o sinal da cruz. Não a conhecera pessoalmente, mas sabia pela gente do lugar, de todas as bondades que a única filha do fazendeiro realizava em favor dos mais necessitados de Ribeirão Verde.

Defendeu-se cara a cara com José Antunes, à altura, enfrentou-o ante a acusação de roubo, de desvio das tais obras. Por fim, depois do conflito, o homem não voltara a importuná-lo. Não soube mais nada a respeito dele. Talvez tivesse se mudado da cidade. 
Sentira-se um pouco cansado, não queria mais pensar no assunto. Uns dias de férias lhe faria bem, para recompor-se após nefasto acontecimento, de vergonha para ele, que se tratava de um rapaz integro, probo, de comportamento reto, na vida e na profissão. Para substituí-lo, a diretoria da entidade, designara uma professora aposentada, respeitável senhora, da confiança da diretoria.

Lembra que quando retornara das férias, fora preciso firmeza e muita diplomacia para afastar a sua substituta, pois, que a mesma se negava a ceder-lhe o lugar, que ele julgava seu de direito. Quanto tempo se passara desde então? Não cogitava mais disso.

Imerso nessas lembranças sentia que aos poucos a calma voltava, e já se sentia pronto para uma abordagem àquela moça que ao mesmo tempo temia, quanto o atraia. É quando ouve a doce voz vinda do interior da sala, convidando-o:
- Entre Oswaldo, estamos a sua espera.

Uma bomba sobre a cabeça, não teria surtido o mesmo efeito.
O calafrio que percorrera o seu corpo, os pêlos eriçados, e o intumescimento da musculatura das pernas, era por demais paralisante, impedindo-o de debandar dali o mais rápido que pudesse... Só não contava com aquela força poderosa que o atraia para dentro do salão de leitura.

Não foi sem espanto e estranheza que deparou com um pequeno número de pessoas de pé, olhando em sua direção, com expressão de simpatia e bondade. Reconhece, surpreso, cada um ali presente. Escritores e poetas conhecidos seus, através das inúmeras obras que manuseara, nas imensas prateleiras impecavelmente limpas e organizadas. Autores que conhecia, pelas leituras que fazia noite adentro, mergulhando nos contos, histórias e poesias.
Quanta vez não citara seus nomes e seus trabalhos para jovens e crianças, objetivando a divulgação de tão belo trabalho da literatura brasileira? E agora, estavam ali, materializados em carne e osso, como se tivessem saído de suas próprias obras, em suas vestes originais, a sorrir-lhe, como bons e velhos amigos.

A sua frente estavam nada mais nada menos que Castro Alves, José de Alencar, Aluísio Azevedo, Machado de Assis, Gonçalves Dias, Auta de Souza, Monteiro Lobato, Casimiro de Abreu, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, e com um belo sorriso, a atrair-lhe a Srta Morena Bonita, tendo fixos nos dele, os olhos profundamente negros.

- Quanto mais antigo é um fato, mais ele se mistura às lendas, não é mesmo, Oswaldo? 
Conheço os acontecimentos relacionados com o desaparecimento das obras literárias doadas à Biblioteca, por José Antunes, no ano de 1990.  
Parece que há um bloqueio em sua memória, pequeno detalhe do episódio naquele período em que tudo aconteceu. Lembra-se dele, agora?

Oswaldo empalidece. O que ela queria dizer com “bloqueio na memória”?Como se um estampido rompesse forte muralha, abre-se em sua mente uma fresta e, o bibliotecário constrangido, vê uma cena a muito esquecida. Ao receber na portaria da Biblioteca inúmeras caixas contendo livros, vinda da fazenda de José Antunes, pensara, naquele dia, que antes de organizá-los nas estantes da sala de leitura, pudesse lê-las uma por uma, adentrar àquelas obras raras, que somente a jovem Antunes tivera o privilégio de fazê-lo.  Autores brasileiros a quem admirava. Talvez tivesse sido um egoísmo seu apropriar-se de tais leituras antes do público, e depois da dona dos livros. Quanta honra. Irresistível tentação. Mas, dentro de pouco tempo, toda aquela riqueza literária estaria à disposição a quem desejasse lê-las. Depois dele, certamente.



Mas, muita gente visitava a Biblioteca em busca de tais livros. Ainda mais sabendo trata-se de doação da falecida, obras raras, de autores brasileiros. Muita gente protestava por não encontrá-los nas prateleiras, e gritava à porta.  Até que José Antunes, viera pra resolver tal questão. Homem rude acostumado a resolver suas pendengas com violência, ainda mais que se encontrava inconformado, revoltado com a morte da filha amada, sentia necessidade de extrapolar os sentimentos feridos. E extrapolou!


- Estamos aqui reunidos com a finalidade de lembrar-lhe que é chegada a sua hora de deixar as suas funções – continua a moça com voz suave e firme. - A população da cidade não freqüenta mais a Biblioteca Municipal, nem os seus filhos, nem os estudantes das escolas.
A cada dia, vemos os livros apodrecerem nas estantes, principalmente nos dias que se seguem, com o advento da Internet, as bibliotecas parecem condenadas a um “santuário cultural”, infestadas de pó e pragas a devorarem as nossas mais preciosas obras. Precisamos revitalizar esse patrimônio cultural da cidade, e contamos com sua preciosa colaboração.

- Que eu... posso fazer...para ....a...judar? – murmura o homem, com humildade sincera.
- Aceite que outra pessoa o substitua. Se afaste da porta de entrada, onde insiste em permanecer dia e noite, cumprindo de forma obcecada uma tarefa que não mais lhe pertence.  Temos uma nova ocupação para você em outros departamentos da vida, em que temos plena certeza, de que será efetivamente mais útil.

Meu nome é Elisa Antunes. Antes de falecer, no ano de 1990, comuniquei o desejo ao meu pai José Antunes, de doar todos os meus livros, da minha biblioteca particular à biblioteca da Ribeirão Verde. Há meses tenho vindo à Biblioteca, com o firme propósito de atraí-lo até mim, para convencê-lo a partir conosco, de livre espontânea vontade, convencido de que o seu prestimoso trabalho por aqui, não se faz mais necessário.

Nossos poetas e escritores vieram especialmente para acompanhá-lo, haja vista, a sua grande dedicação e divulgação de suas obras. Pelos cuidados e gosto pela leitura, foi considerado justo, conduzi-lo em sua nova ocupação, em outra “biblioteca” da vida.

Sua presença, caro Oswaldo, há anos aí na  frente da Biblioteca Municipal, já se tornou uma lenda aos olhos dos habitantes de Ribeirão Verde. E é uma lenda “viva”, convenhamos, vivamente horripilante, que o senhor há de concordar, pois, que despido de suas vestes da matéria densa, ou seja, do seu corpo de carne, tem assustado e afugentado muitos leitores há trinta e dois anos, logo após o tiro certeiro do revolver do meu infeliz pai, que acabou por vitimá-lo. Assim sendo, muitos leitores dessa cidade deixam de conhecer o que tanto o senhor cuidou e divulgou: obras importantíssimas da rica literatura brasileira.

Podemos ir, agora?



Esse conto, não se trata de uma lenda urbana, e sim, de um conto fictício.

Maria Lucia (Centelha Luminosa)