ESSA OUTRA MÃE

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Lembro-me muito dela, ainda.
Luisa da Silva. Ou simplesmente Lola!
Magra, quase esquelética, talvez parecesse alta por causa da magreza. De uma fragilidade tocante. O cabelo preso num coque à altura da nuca, dava-lhe um ar de mais idade. Surrada, moída, o sorriso franco era o que dava vida àquele rosto magro e pálido. Os olhos brilhantes traziam o mistério da melancolia, que somente poucos do seu convívio, sabiam enxergar.

Naquela tarde de sábado, Lola se encontrava especialmente feliz. Pretendia visitar o filho João, no domingo, como fazia  em cinco anos.  Já que o “Jão” não podia vir passar o “Dia das Mães com ela, pensava resignada, ela iria ao seu encontro, "naquele" lugar, pois, já estava acostumada. Não se importava com datas. Ele a esperava.



Ah...Se soubéssemos o que se passa no coração de uma mãe quando seu filho não é feliz, por todos os tipos de dificuldades, e ela sentindo-se impotente pra arrancar com as próprias mãos, toda e qualquer magoa que estiver machucando àquele que é a razão de sua vida, teríamos por ela, o maior respeito, um grande e doce afeto. E, quando esse filho se encontra à margem da sociedade, porque delinqüiu, tornou-se um assassino, ou ladrão vulgar, a separação entre ambos, imposta pela Lei, machuca essa mãe, num grau superlativo de dor que somente outra mãe conhece bem, em qualquer lugar do mundo, não mportando a cor, a posição social. É sabido que todo insucesso ou sofrimento que fere um filho, fere muito mais  a sua mãe.

É, nesse ser maltratado pela penúria, pelos açoites da dor, que o filho encontra o porto seguro, cenário de um amor sem barreiras, sem grades, sem códigos de lei, seja aquele que lhe proporciona as maiores ou menores alegrias, ou aquele, que lhe enche a alma de preocupações e cuidados. Que o mundo o acuse e lhe vire a cara,  para ela, o seu filho é bom, a quem não recusa amor e dele não desiste jamais.


 
João fora detido há cinco anos, por envolvimento em roubos e contrabando e encaminhado ao presídio da cidade em que moravam. Entretanto, Lola, não deixava de estar com ele, chovesse ou fizesse sol, caminhando com dificuldade, quilômetros pra chegar até o presídio em dia de visitas, se posicionando sempre ao lado do filho, defendendo-o como uma leoa, apesar dos erros cometidos.  Lola suportava todo o tipo de humilhação em busca de benefícios para o filho nos corredores do Palácio da Justiça, e apesar de analfabeta, conhecia muito bem o que vinha a ser prisão albergue, livramento condicional, domiciliar, e vários artigos do Código Penal. Lutava pra humanizar a pena do “Jão”, para que ele não fosse apenas mais um número, entre tantos, para que não se transformasse em “
coisa”.


O que nos sugere o amor materno, que desconsidera a circunstancia que obriga uma mulher a viver entre o seu lar modesto e o Presídio, a não se importar com a longa distancia percorrida, que a separa do ser amado, os processos demorados, os despachos condenatórios, as mãos estranhas que lhes percorrem o corpo, na revista de praxe, antes de adentrar o recinto penitenciário?


Esse cenário não é apenas o palco eventual da sua batalha com os poderes constituídos. As mães sabiam bem que seus filhos haviam infringido as leis, eram criminosos, julgados e sentenciados, em dívida com a sociedade. Ali, por trás das grades das celas ou no pátio reservado às visitas familiares aos presos, entre cestas de bolos e doces, outra cena se desenrolava, quando  anjos maltrapilhos  e sem asas, um outro papel  representavam na ribalta dessa vida tão estranha: a de estrela guia, sem aparatos do “estrelismo” para aconselhar, convencer, persuadir  com as palavras simples que conheciam, sobre as dores e inquietações que seus filhos encontrariam se permanecessem na marginalidade. O único recurso que essas mães tinham em mãos, era o amor, a dedicação extremada, o estar disponível para eles o tempo que fosse necessário. Lola, então, era um desses anjos.

O amor é força motriz, que promove a atração dos átomos para formar a molécula, a das moléculas formando células, das células compondo órgãos e constituindo os espécimes, entre si, formando o grupo ou a família, dando continuidade à vida. É a alavanca que aciona as potencialidades adormecidas da alma. O toque que revela o mistério da transcendência do Ser, arrancando-o da solidão do “não ser”.

Naquele domingo, Dia das Mães, o primeiro e único entre tantos, João não receberia a visita tão aguardada. Segundo o agente penitenciário, “Dona” Lola, socorrida pela vizinhança prestimosa, dera entrada, já quase sem vida, ao Hospital público. Não suportara o frio da madrugada, e nem às complicações da anemia que a vitimava já a algum tempo. Contudo, ela enviara, por pessoa de sua confiança, ao seu “Jão”, a costumeira cesta de bolos e doces, em seu nome, com a seguinte recomendação: se possível, naquela noite, ele contemplasse o Céu carregado de estrelas. Se o Pai de Amor permitisse, ele a veria, faiscar amor e saudades, de onde estivesse.


Maria Lucia (Centelha Luminosa) 





Estrela Guia

Quando criança olhando o céu, minha mãe dizia:
As estrêlas têm nomes que alguém lhes deu.
E que elas todas têm um brilho próprio seu.
Olhe o brilho da Estrela D'Alva, a Estrela Guia!


Aquelas juntinhas, três irmãs - as Três Marias!
Veja a Estrela da Manhã, já acendeu!
Meu filho, as estrelas são feitas por Deus
Que vai criando todas elas durante o dia!


Durante o dia, um dia minha mãe morreu.
De perto de mim ela desapareceu
E na Terra uma estrela se extinguia


E quando a noite escura chegou como um breu
Olhando para as belas estrelas no céu
Então,  vi uma nova estrela que surgia!


Guilherme Travassos Sarinho





Comentários

  1. Maravilhoso!!!
    Tenha um final de semana inesquecível! Tudo de bom
    bjs
    juliana

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  2. Lu, você foi muito feliz em seu post do Dia das Mães. Mostrou um lado maternal marginalizado pela sociedade e fez a diferença em meio a posts tão diferentes, mas praticamente iguais.
    Meus muitos parabéns!
    Comovente sem ser piegas.

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  3. Ola,
    Hoje já visitei muitos blogs com este tema, afinal estamos nos aproximando de uma data mesmo muito especial: o dia das mães. Contudo o seu texto trouxe um aspecto inédito para a minha leitura de hoje, ou seja, mostrar o outro lado das mães, que mesmo nas prisões ou em condições das mais adversas, estão sempre ali como porto seguro com seu amor incondicional aos filhos.

    Adorei. Parabéns e feliz dia das mães!


    Abraços, Flávio.
    --> Blog Telinha Crítica <--

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  4. Lulu,
    que lindo! Você é muito boa em prosa também, deveria nos oferecer mais dessa leitura preciosa.
    Interessante o teu enfoque priorizado, o da mãe marginalizada, que tantas existem pelo Brasil e mundo. Uma situação muito difícil, mas ainda assim, Mães em maiúsculo.
    Tocante, sensível, inteligente e muito social tua visão.
    Parabéns!

    Feliz dia das mães para nós todas!
    Grande beijo!

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  5. Lindo,emocionante e pena, tantas Lolas existem,não?beijos,tudo de bom,lindo domingo das Mães!chica

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  6. Olá!Boa tarde
    Tudo bem?
    Vou sair um pouco do meu padrão de comentar..
    Apesar de ser "copy and paste", é do Meu para seu Coração
    " ...é dia de agradecer à Deus
    pelo privilégio de se ter uma mãe,
    tão corajosa, quanto cautelosa
    seus sábios conselhos, a sua mão estendida
    nos momentos certos, prova que és um farol a indicar e clarear
    a melhor direção que devemos seguir.
    Que a cada amanhecer, um sorriso brilhe
    que sua caminhada seja suave, sem tropeços,
    que olhes o futuro com esperanças renovadas
    com a certeza que chegará ao seu destino
    tendo cumprido as determinações de Deus.
    Observe com olhos brilhantes o mundo a sua volta
    pois os maiores segredos da felicidade
    estão escondidos nas pequenas coisas
    e nos gestos mais simples de carinho.
    ... é somente mais um dia que pertence
    à todas as mães durante a sua existência preciosa
    Ofereço o máximo dos meus melhores desejos
    os meus sinceros votos de paz , de serenidade
    e que a vida de cada mãe se enriqueça cada vez mais
    com saúde, compreensão e amor no coração."
    Feliz Dia das Mães
    Bom final de semana
    Beijos e abraços
    (IN)FELIZ

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  7. Belo tema, Lú
    Feliz dia das mães....bjs

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  8. Lu,

    Boa tarde, amiga querida! Esse texto que você escreveu me comoveu e fui as lágrimas. Como o amor de mãe é forte, belo e invencível. Que sentimento esse o de Lola que se perdura após tantas quedas e dificuldades. Ah, queria que as mães nesse mundo, pudessem receber o melhor no dia das mães, queria que os seus desejos fossem atendidos, queria que os seus filhos fossem protegidos eternamente.

    Para você que é um amor de mãe e avó, desejo que as suas maravilhas possam te abraçar e te passar o amor que você merece, pelo exemplo de mulher que você é.

    Beijos de uma mãe para outra!

    Lu

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  9. Um ótimo conto, falando de uma realidade muitas vezes omitida em meio às tantas homenagens prestadas às mães neste dia.
    Você escreve muito bem, parabéns!

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  10. Sentimento e lágrima, efeitos de seu texto em meu coração. Linda inspiração. Agradeço-lhe o belo momento, a lembrança do amor em tudo e em todos.
    Gilvan Almeida

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  11. Maria Lucia,
    Você me encanta com suas palavras gentis e encorajadoras! Saiba que eu jamais, mas nunca mesmo, esquecerei o presente de aniversário que me destes!Você é maravilhosa!
    Um beijão e feliz Dia das Mães!

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  12. Oi Maria Lúcia: muito lindo o seu texto! E temos algo em comum neste dia: como vc, hoje também estou pensando nessas outras mães que às vezes passam despercebidas nesse dia...Hoje estava lembrando das mães que estão (ou estiveram) num leito de hospital com seus filhos doentes. Assim como pude presenciar quando minha sobrinha ficou doente (minha irmã passou o dia das mães no Boldrini). E, com toda a felicidade que sinto neste dia pois tenho dois filhos lindos que são bençãos que Deus me deu, não consigo deixar de pensar em como minha irmã vai se sentir amanhã...e também, em todas essas outras mães...Eu sempre oro e peço a Deus que lhes dê força e paz...
    Mais uma vez, parabéns pela sensibilidade! Um grande beijo pelo Dia das Mães! Que Deus a abençoe.

    http://adelisa-oquerealmenteimporta.blogspot.com.br

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  13. Maravilhoso post Lucia! Falar sobre o sofrimento das mães estão à margem social por causa de seus filhos ou mesmo por atos que elas cometeram é muito sensíbilidade da sua parte. Mãe é mãe, até o escopião fêmea protege e ama seus filhinhos, quanto mais uma mãe a quem Deus deu um amor segundo o Seu coração.
    Beijokas doces e um feliz e abençoado dia das mães para você querida.

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  14. Oi querida amiga,

    voltando amiga, saudades imensas de estar sempre aqui, mas agora retornando. Obrigada por estar sempre conectada a minha pessoa.
    Passando para saber como você esta e te desejar um lindo dia das mães, bem iluminado e feliz.
    Abraços imensos e fica com Deus. Bjinhos da Verinha.

    Parabéns a todas as mães pelo seu dia.

    Amor materno

    Amor incondicional,
    Amor sem igual,
    Só você sabe o que é amar,
    Sem medir esforços.

    Mesmo que o mundo caia,
    Que a vida tome rumos diferentes,
    Que nada mais faça sentido,
    O amor materno sempre existirá.

    Nada pode abalar o amor de mãe.
    Nada pode vencer um amor assim.
    Nem mesmo o fim dos tempos consegue.
    Mesmo que ele ainda esteja na barriga,
    O filho já é vivido intensamente.

    Viva a todas as mães que podem amar
    Seus filhos, mesmo que ele não seja
    Fruto do seu ventre, o sentimento é o mesmo.
    Então, jamais esqueça disso, sua mãe é tudo.

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  15. O amor de mãe é perfume de rosas e toque de veludo...a memória eterna de momentos de ternura...um suave colo e uma doce recordação que para sempre viverá dentro do coração de quem elas mais amaram...os seres que são a carne da sua carne.

    FELIZ DIA DA MÃE

    Beijinhos com carinho
    Sonhadora

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  16. Olá Lu,

    Amor de mãe, não se compra. Ele brota de dentro dela, é genético.
    Bela história, essa que nos contou.

    Feliz dia das mães.

    Abraços com carinho.

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  17. Olá, vim lhe desejar um bom dia e uma ótima semana!
    Abraço.

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