quarta-feira, 2 de maio de 2012

Quem Sou Eu

(Imagem do Google)



"Em que espelho ficou perdida a minha face?"
- Cecília Meireles (Antologia Poética)


Olho-me uma vez mais no espelho já sem susto ou estranheza. Na face não busco a beleza aos meus disfarces me assemelho.
Não sou quem pareço ser no brilho desse olhar de fera que dos meus olhos se apodera, falando-me das mentiras que urdi pra sobreviver...

Transponho o espelho não como a Alice em aventura diferente da minha, que por insolência e esperteza fantasia ser rainha...Busco a ternura da menina, máscara que muito me fascina, entre todas, em tantas eras...

Quantas fugas eu inventei pra desafiar o destino que em surdina tecia remendos pras balbúrdias que eu criava dentro de mim, faces  disfarçadas, muitas vezes descartadas, vernizes enganosos da aparência, falsas imagens, engendradas personagens...

Quanto busquei por mim!

Um salto no escuro, e a queda em confusos atalhos, eu pensava em visualizar-me inteira, e, no entanto, encontrava-me colcha de retalhos.

Eu bem que poderia dar a esse olhar no espelho um final feliz de reencontro sem reticências, uma brecha em meio ao caos, em cor-de-rosa fantástico que não dá mais pra engolir, prefiro, então, o emergir antálgico no obscuro, com a dor da saudade de mim, que é a quem procuro...

O valor dessa procura talvez consista única e exclusivamente na possibilidade de que por meio desses tortuosos caminhos eu me decida a desprezar as máscaras, abrir a verdadeira face ao mundo e o que há de melhor nela. Só assim, valerá todas as penas vividas.

E nesse paradoxo de mentiras e verdades, entre o meu olhar de solidão e o meu coração embalsamado na  caverna de Platão,  afasto a pedra de tropeço e, sob a luz que se  acende em mim, pra perguntar mais uma vez:
-Espelho!...Espelho meu!...Quem sou eu?


Maria Lucia (Centelha Luminosa)