sexta-feira, 11 de maio de 2012

ESSA OUTRA MÃE

Imagem do Google


Lembro-me muito dela, ainda.
Luisa da Silva. Ou simplesmente Lola!
Magra, quase esquelética, talvez parecesse alta por causa da magreza. De uma fragilidade tocante. O cabelo preso num coque à altura da nuca, dava-lhe um ar de mais idade. Surrada, moída, o sorriso franco era o que dava vida àquele rosto magro e pálido. Os olhos brilhantes traziam o mistério da melancolia, que somente poucos do seu convívio, sabiam enxergar.

Naquela tarde de sábado, Lola se encontrava especialmente feliz. Pretendia visitar o filho João, no domingo, como fazia  em cinco anos.  Já que o “Jão” não podia vir passar o “Dia das Mães com ela, pensava resignada, ela iria ao seu encontro, "naquele" lugar, pois, já estava acostumada. Não se importava com datas. Ele a esperava.



Ah...Se soubéssemos o que se passa no coração de uma mãe quando seu filho não é feliz, por todos os tipos de dificuldades, e ela sentindo-se impotente pra arrancar com as próprias mãos, toda e qualquer magoa que estiver machucando àquele que é a razão de sua vida, teríamos por ela, o maior respeito, um grande e doce afeto. E, quando esse filho se encontra à margem da sociedade, porque delinqüiu, tornou-se um assassino, ou ladrão vulgar, a separação entre ambos, imposta pela Lei, machuca essa mãe, num grau superlativo de dor que somente outra mãe conhece bem, em qualquer lugar do mundo, não mportando a cor, a posição social. É sabido que todo insucesso ou sofrimento que fere um filho, fere muito mais  a sua mãe.

É, nesse ser maltratado pela penúria, pelos açoites da dor, que o filho encontra o porto seguro, cenário de um amor sem barreiras, sem grades, sem códigos de lei, seja aquele que lhe proporciona as maiores ou menores alegrias, ou aquele, que lhe enche a alma de preocupações e cuidados. Que o mundo o acuse e lhe vire a cara,  para ela, o seu filho é bom, a quem não recusa amor e dele não desiste jamais.


 
João fora detido há cinco anos, por envolvimento em roubos e contrabando e encaminhado ao presídio da cidade em que moravam. Entretanto, Lola, não deixava de estar com ele, chovesse ou fizesse sol, caminhando com dificuldade, quilômetros pra chegar até o presídio em dia de visitas, se posicionando sempre ao lado do filho, defendendo-o como uma leoa, apesar dos erros cometidos.  Lola suportava todo o tipo de humilhação em busca de benefícios para o filho nos corredores do Palácio da Justiça, e apesar de analfabeta, conhecia muito bem o que vinha a ser prisão albergue, livramento condicional, domiciliar, e vários artigos do Código Penal. Lutava pra humanizar a pena do “Jão”, para que ele não fosse apenas mais um número, entre tantos, para que não se transformasse em “
coisa”.


O que nos sugere o amor materno, que desconsidera a circunstancia que obriga uma mulher a viver entre o seu lar modesto e o Presídio, a não se importar com a longa distancia percorrida, que a separa do ser amado, os processos demorados, os despachos condenatórios, as mãos estranhas que lhes percorrem o corpo, na revista de praxe, antes de adentrar o recinto penitenciário?


Esse cenário não é apenas o palco eventual da sua batalha com os poderes constituídos. As mães sabiam bem que seus filhos haviam infringido as leis, eram criminosos, julgados e sentenciados, em dívida com a sociedade. Ali, por trás das grades das celas ou no pátio reservado às visitas familiares aos presos, entre cestas de bolos e doces, outra cena se desenrolava, quando  anjos maltrapilhos  e sem asas, um outro papel  representavam na ribalta dessa vida tão estranha: a de estrela guia, sem aparatos do “estrelismo” para aconselhar, convencer, persuadir  com as palavras simples que conheciam, sobre as dores e inquietações que seus filhos encontrariam se permanecessem na marginalidade. O único recurso que essas mães tinham em mãos, era o amor, a dedicação extremada, o estar disponível para eles o tempo que fosse necessário. Lola, então, era um desses anjos.

O amor é força motriz, que promove a atração dos átomos para formar a molécula, a das moléculas formando células, das células compondo órgãos e constituindo os espécimes, entre si, formando o grupo ou a família, dando continuidade à vida. É a alavanca que aciona as potencialidades adormecidas da alma. O toque que revela o mistério da transcendência do Ser, arrancando-o da solidão do “não ser”.

Naquele domingo, Dia das Mães, o primeiro e único entre tantos, João não receberia a visita tão aguardada. Segundo o agente penitenciário, “Dona” Lola, socorrida pela vizinhança prestimosa, dera entrada, já quase sem vida, ao Hospital público. Não suportara o frio da madrugada, e nem às complicações da anemia que a vitimava já a algum tempo. Contudo, ela enviara, por pessoa de sua confiança, ao seu “Jão”, a costumeira cesta de bolos e doces, em seu nome, com a seguinte recomendação: se possível, naquela noite, ele contemplasse o Céu carregado de estrelas. Se o Pai de Amor permitisse, ele a veria, faiscar amor e saudades, de onde estivesse.


Maria Lucia (Centelha Luminosa) 





Estrela Guia

Quando criança olhando o céu, minha mãe dizia:
As estrêlas têm nomes que alguém lhes deu.
E que elas todas têm um brilho próprio seu.
Olhe o brilho da Estrela D'Alva, a Estrela Guia!


Aquelas juntinhas, três irmãs - as Três Marias!
Veja a Estrela da Manhã, já acendeu!
Meu filho, as estrelas são feitas por Deus
Que vai criando todas elas durante o dia!


Durante o dia, um dia minha mãe morreu.
De perto de mim ela desapareceu
E na Terra uma estrela se extinguia


E quando a noite escura chegou como um breu
Olhando para as belas estrelas no céu
Então,  vi uma nova estrela que surgia!


Guilherme Travassos Sarinho